Quando as máquinas “alucinam”:
O que a Inteligência Artificial pode — e não pode — fazer por nós!
Vivemos uma época paradoxal. Nunca tivemos tanto acesso à informação e, ao mesmo tempo, nunca foi tão fácil sermos enganados por respostas que parecem certas, mas não o são!
A chamada “alucinação” da Inteligência Artificial (IA) é um dos fenómenos mais relevantes — e menos compreendidos — do nosso tempo. Importa explicá-lo com clareza, porque dele dependem decisões no ensino, na justiça, na saúde, na comunicação social e na vida quotidiana.
O que significa uma IA “alucinar”?
Quando se diz que uma IA alucina, não se está a falar de delírio, imaginação ou consciência — como acontece nos seres humanos. Trata-se de algo muito mais simples e, por isso mesmo, mais perigoso.
Uma IA alucina quando:
• fornece informação falsa ou inventada,
• com linguagem fluente e segura,
• sem indicar que não tem certeza do que afirma.
O problema não está na forma da resposta, mas no seu conteúdo. A resposta soa correta, mas não corresponde à realidade.
Porque acontece isto?
As IAs atuais não sabem factos nem verificam a realidade. Funcionam por cálculo estatístico: analisam grandes quantidades de texto e aprendem quais as palavras que costumam surgir juntas.
Em termos simples, a IA não pergunta:
“Isto é verdade?”
Ela pergunta:
“O que costuma vir a seguir numa frase como esta?”
Quando falta informação clara, quando a pergunta é ambígua ou quando o contexto é demasiado amplo, a IA tende a preencher lacunas com algo plausível. É aqui que nasce a alucinação.
Não há intenção de enganar. Há apenas ausência de ancoragem no real.
O erro está só na tecnologia?
Não. Uma parte significativa do problema está na forma como nós, humanos, usamos a tecnologia.
Projetamos na IA capacidades que ela não tem:
• compreensão,
• juízo,
• consciência,
• responsabilidade.
Falamos com a máquina como se fosse um especialista ou uma autoridade. Mas a IA simula linguagem, não conhecimento. Ela não tem experiência do mundo, não sofre consequências e não distingue verdade de plausibilidade.
Inteligência não é consciência!
Aqui reside a distinção fundamental que o debate público raramente faz.
• A IA calcula
• O ser humano compreende
A consciência humana inclui dúvida, hesitação, sentido ético e responsabilidade. A IA, pelo contrário, tende a avançar sempre com uma resposta, mesmo quando não sabe.
Paradoxalmente, a IA alucina porque é demasiado coerente. Onde o humano diria “não sei”, a máquina continua.
Um novo risco: confiar sem questionar
O verdadeiro perigo não é a existência de erros — errar é humano e técnico.
O perigo é a confiança acrítica.
Quando respostas geradas por IA são usadas:
• em trabalhos escolares,
• em decisões administrativas,
• em textos jornalísticos,
• em pareceres técnicos,
sem validação humana, o erro deixa de ser individual e passa a ser sistémico.
Tecnologia ao serviço da consciência, não no seu lugar
A Inteligência Artificial pode ser uma ferramenta extraordinária:
• para organizar informação,
• para apoiar análises,
• para acelerar processos.
Mas não pode substituir a consciência humana, nem deve ser tratada como fonte última de verdade.
Quanto mais avançada é a tecnologia, maior deve ser a responsabilidade humana — não menor.
Uma questão de cidadania:
Saber que a IA pode alucinar não é um detalhe técnico. É uma questão de literacia cívica.
Usar bem estas ferramentas exige:
• espírito crítico,
• verificação,
• humildade intelectual,
• e consciência dos limites da máquina.
O futuro não pertence às máquinas que calculam melhor, mas às sociedades que sabem decidir melhor.
Jacinto Alves, escritor e investigador em Ciência Informacional.
ECLETA - ACADEMIA DE ESTUDOS ECLÉTICOS DE PORTUGAL.

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